terça-feira, 31 de maio de 2011

Haja paciência para roteiro preguiçoso

Há muito não ia ao cinema como espectador regular. Normalmente é na correria: em cabine para a imprensa pela manhã; esmagado em sessões de pré-estreias brarulhentas; naquela escapadinha ao final da tarde para pegar uma mostra ou um filme prestes a sair de cartaz.

Pois no sábado à noite, programei-me de ir ao cinema, não com o mero objetivo de assistir ao filme, mas como parte do programa social praticado por pessoas normais, que o empreendem na maioria das vezes (ou não, sei lá) acompanhadas de seus respectivos pares ou grupo de amigos, pagando pelo ingresso. No meu caso, inteira.

Pois engajei-me no ritual básico para "pegar um cineminha": passeamos, nega e eu, no shopping (neste caso, o CasaPark), lanchamos, conversamos, pagamos os bilhetes para uma comédia de fácil digestão, compramos pipoca, refri e confeitos, entramos na sala, sentamos lá no alto, desligamos os celulares e assistimos a trailers (coisa raríssima em minha rotina) antes de começar o filme eleito: Santa Paciência.

Findo o filme, não me arrependi do programa. Afinal, estava acompanhado da minha nega, que elevou a qualidade do programa para muito além da bobajada projetada na telona do Embracine.

Mamoud (centro): comediante stand-up arranca alguns risos

Antes de prosseguir, advirto que arrisco uma crítica no escuro agora. Ou seja, sem pesquisa nem nada. Entendam, fui à paisana.

Independentemente do título (que no original é O Infiel), revesti-me de muita boa vontade. Mas foi duro tolerar a preguiça mental que bateu no roteirista na terceira parte do filme – uso da prerrogativa de ter ido à paisana ao cinema para justificar a falta de referências a diretor e equipe desta produção, aparentemente, britânica.

Rimos um bocado, a nega e eu, do Mamoud Nasir, personagem central da trama, interpretado por um comediante stand-up inglês com traços árabes. Sujeito engraçado, mas o texto não ajuda muito. A premissa é instigante e um tanto provocativa – como uma boa comédia deve ser.

Mamoud é um muçulmano relapso, não é muito de orar ou frequentar a mesquita, é chegado em uma cervejinha e louco em futebol e no cantor pop oitentista Gary alguma coisa. Além disso, ele é declaradamente contra o extremismo islâmico e até sugeriu uma união entre xiitas e sunitas em um artigo enviado a um tablóide (e não publicado), apesar de ensinar expressões radicais à sua filha caçula.

Mas o camarada precisará praticar sua religião com mais ardor quando o filho mais velho resolve querer casar-se com a filha do líder extremista islâmico Arshad El-Masri. Mas o religioso quer, antes de dar sua bênção, ver com os próprios olhos a devoção da família do garoto.

Só que, no meio deste turbilhão, Mamoud limpa a casa de sua mãe recentemente falecida, quando encontra sua certidão de nascimento. E descobre ter sido adotado. Quando vai atrás dos seus pais biológicos, descobre que seu nome é Solly alguma coisa Witz. Ou seja, sua descendência é judia.

Mamoud em seu processo de "conversão" ao judaísmo

Sorrateiramente, ele começa a revisitar suas raízes (e precisa aprender a se comportar como judeu para conseguir visitar seu pai enfermo, vigiado 24/7 por um rabino caxias). Para isso, conta com ajuda de um vizinho que odeia, um americano que encarna o mais claro estereótipo do judeu novaiorquino.

Isso tudo leva a situações hilariantes, como a uma discussão interessante da milenar rivalidade entre paquistaneses e israelenses, mas com uma sátira pouco afiada. O que, até aí, tudo bem. Quando o roteiro conforma-se ao mais preguiçoso, óbvio e tolo desfecho da regra Syd Field, concluo: à paisana ou não, falta-me paciência para este tipo de coisa.

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